terça-feira, 14 de novembro de 2023

Conhecimento, autoconhecimento, conhecer-se ou se deixar conhecer

 

Depois de muito tempo lembrei-me que um dia tive um blog, que um dia gostei de escrever, que um dia tive motivação para tal.

Resgato com esse pequeno texto alguns questionamentos, busco algumas respostas para perguntas que em algum momento fiz a mim mesmo, perguntas que não merecem respostas elaboradas, pensadas, mas respostas vindas do coração, sem razão, apenas carregadas de emoção. Os muitos "se" são necessários para essa viagem.

Faço aqui um exercício de faz de conta e levo você, ora leitor, a viajar comigo nessa brincadeira em busca de respostas ou de mais perguntas, você decide.

Se você descobrisse que tem somente mais um dia de vida, um único dia, você contaria pra alguém? Ou viveria da melhor forma? Ou faria tudo que teve vontade e por algum motivo, ou regra, ou pudor, ou razão não viveu? Faria uma busca por perdão, reconciliação ou tocaria o foda-se? Eu, no exercício imaginário da loucura buscaria conhecer outros sabores: de sorvete, de comida, de lábios. Talvez me permitisse dizer coisas a algumas pessoas. A certas mostraria o quanto foram importantes na minha existência, com pouco ou bastante tempo de contato, com pouca ou muita intensidade na troca de olhares, de abraços, de experiências. A outras diria: obrigado pela oportunidade proporcionada por você, pela sua forma de ver a vida, pela intolerância, ingratidão, valeu, cresci. E, caso resolvesse contar pra alguém a sua novidade, pra quem seria? Pais, amigo, amiga, namorado, ex-namorado? Quem teria o privilégio de saber algo tão importante? Confesso que hoje teria pouquíssimas opções de nomes, uns para não ferir com a iminente situação e outros para não dar o gostinho...

Se você recebesse de presente uma caixa com tudo o que você já perdeu, que já teve alguma importância, ou não, o que você procuraria primeiro? Buscaria amigos, parentes, oportunidades, tempo perdido, coisas? Ou...

Se você não soubesse quantos anos tem, qual seria sua idade? Conheço algumas pessoas com pouca idade e velhas por dentro, pelas atitudes, comportamentos, e outras com mais experiência que são jovens, transmitem leveza. Viva a vida!

Se você tivesse o poder de ir, agora, para qualquer lugar do mundo, iria pra onde? Iria atrás do quê ou de quem? Conheceria novos lugares ou iria em busca de belas recordações?

Se você fosse dotado de poderes mágicos, apagaria sua pior memória ou reviveria a sua melhor memória? Tristezas, aflições, angústias, medos, prazer, experiências, contatos...

Se a você fosse dada a faculdade de poder viver para sempre, você viveria? Teria razão para tal, ou abriria mão por não poder ter ao seu lado pessoas, coisas, algo que goste e que passariam?

Se um dia você pudesse entrar num espaço, uma sala, e lá estivessem todas as pessoas que já conheceu na vida, quem você procuraria primeiro? A quem seria dado o primeiro abraço, beijo, e por quê? Afirmo sempre que se você tem, na sua lista de contatos, alguém a quem possa ligar às 03:00 e pedir socorro, e essa pessoa te atender sem perguntas, você tem um tesouro. Faço outro questionamento: tem algum dos seus contatos a quem, caso te chame, você iria ao encontro sem perguntas?

Por fim brinco com a questão do sentir falta. Você sente falta de ser uma pessoa diferente do que você é hoje ou da pessoa que você era antes dos anos passarem e mudar os seus planos? Ou do jeito que está não merece ou precisa de mudança?

domingo, 27 de abril de 2014

Homenagem a um amigo, um amigo homenageado

Pessoas queridas
Tive acesso ao texto ora postado numa das muitas noites em que a 'Sônia' resolveu me visitar.
Coincidência das coincidências, em outro local meu amigo Ari estava acompanhado da prima irmã dela. Quem já passou alguma madrugada acompanhado da inSônia sabe bem do que estou falando.
Pois bem, apresento a vocês, com a devida autorização do autor, uma pequena aula de história escrita de forma simples e didática.



Meu indifesto


Àquilo que for escrito a seguir, será somente àqueles que tiverem um tempinho, sei que como eu, podem não gostar de trechos longos. Tudo é objeto de divagações e qualquer fato real associado serão apenas precários conhecimentos do escritos combinados com pensamentos do leitor.
Assim como na Idade Média um padre de bons ideais pregou na porta de uma igreja a sua indignação, e aquilo modificou ideias, costumes, fatos e bugalhos. Assim como um filho de família rica associado a outro que divagava, em Paris armaram barracas, e falaram, falaram, escreveram, escreveram e também mudaram as coisas.
Assim como eu não vou fazer.
 Anos 60 e 70, existiram (ão) anos tão maravilhosos? Você podia dormir na praça, mas é claro só teria que se identificar se fosse indagado, os que tinham calos na mão ficavam à vontade. Qualquer pessoa não era assaltada, e se tivesse sede não precisava comprar água, ela era servida por qualquer outro que não pensava na mais valia.
O que nós jovens fazíamos era escutar muito rock, assistir filmes em preto e branco. Roupas muito coloridas, cabelos longos. Mais tarde veio o jeans, ou melhor, a calça 'lee'. Tudo era belo, tudo caminhava lento, os filmes ensinavam coisas boas, os mocinhos eram os bons, não existia rede globo, e se existia não tínhamos conhecimento. O xerife era o tal, sonhava ser um, e os Texas Rangers, eles usavam uniformes, eu queria usar um, queria ser o mocinho, queria ser a lei.
Um dia chegou a hora de usar uniforme, o exército, ah que bom, vou usar o verde. Sou orgulhoso, vou mostrar à minha namorada como é belo um homem de uniforme. Já na apresentação me disseram que como estudava na 'Escola Técnica Federal', não seria necessário (o servir): "Deixe para os coitadinhos dos pés vermelhos do norte essa missão", assim diziam, mas eu queria, então...
1975, aquartelamento, limpeza, limpeza e para variar limpeza, depois vigiar, vigiar, vigiar, e depois? Limpeza, vigiar, engraxar, pintar, montar e tudo o que terminar em se fu... dar.
E na hora de folga, salas de aula. Qual assunto mais falado: Comunista.
Mas que diacho é isto? Diziam como combatê-los, mas não diziam quem eram, de onde vinham ou porquê vinham, e só. Prontidão, vigiar, pintar...
O presidente da República, o alemão, caça um dos Ministros. Vigiar sem dormir, eles virão. O maior inverno que já vi, vigiar a -06º Celsius, vigiar pois os comunistas vão atacar o quartel. Será? Mas somos mais de quatrocentos. Passa o ano de 1975 e eu não sabia afinal quem eram estes tais de comunistas, seriam aqueles que não vieram?
Foi legal, na ânsia o tempo passou, nem lembrei de mostrar muito meu uniforme, acho que uniforme jamais, xerife, nunca mais.
Enfim passo no 'vestiba' em 1976, curso 'Estudos Sociais' na Pontifícia Universidade Católica, que diabos é isso 'pontifícia'? Do Papa cara. Ganho uma pasta (mala) onde guardaríamos nossos apetrechos estudantis. Qual cor? Vermelha, é claro, a cor do manto dos cardeais do Papa.
Existiam casinhas de madeira no Campus onde cada curso tinha seus representantes, eleitos é claro em sala de aula, os quais ficavam nas casinhas para nos orientar, chamavam-se 'Diretórios'. As casinhas também conhecidas por núcleos. Qual era o meu diretório? Núcleo do Centro de Ciências Jurídicas e Sociais, bem pomposo, usávamos a pasta vermelha.
Aí me alertaram do perigo: 'Você sabe que em cada sala de aula tem um agente federal disfarçado como aluno", eu não sabia.
Perguntei o que eles fazem ali? Caçam comunistas.
Novamente vem essa história de comunistas. Você que se cuide, pois foi eleito tesoureiro do Núcleo pela turma, e usa essa pasta vermelha, o presidente do Núcleo já foi levado para um tal de DOI CODI. 'Que diabos é isto?' Também não sei, me respondeu, eu acho que é polícia secreta.
Foi a partir daí que resolvi estudar o que era o comunismo. Na época você teria que ir na Biblioteca Pública, fazer uma ficha para poder pegar certos livros (sem google), daqui vocês fazem ideia, por associação, do que aprendi.
Usarei dois personagens: Moi e Gasparzinho, lembrando: ambos somos fictícios.
- Gasparzinho, você sabia que no século XVI, em 1516, um tal de Thomaz Morus escreveu um livro sobre um lugar que não existe, chamado 'Utopia'? Parece que falava de uma ilha onde todos vivem juntos, comem as mesmas comidas, vestem-se iguais, lembra o exército só que não tem nenhum sargento gritando: 'Cuidado com os comunistas', pois na ilha ninguém dava ordens em ninguém.
- Que legal, como se chamavam os habitantes?
- Comunistas.
Até que enfim sei o que significa essa m... de palavra.
- Gaspar, vou pular para 1848, agora estamos em Paris, onde nos arredores da cidade, podemos dizer subúrbio, duas pessoas estão promovendo manifestações. Um é filho de um rico dono de fábricas que se opõe ao tratamento dado pelo seu pai aos funcionários, que na época se chamavam proletariado, ou prole, ou os que ganham pouco. Trabalham muito e fazem a pobreza dos burgos (fora da cidade), às margens, subúrbios, ralé, marginais, pois estão às margens da cidade.
- E o outro?
- Perdão?
- Sim, o outro era um filósofo, que como na Grécia, pensava, pensava, portanto era um pensador.
- Como eles se chamam?
- Pesquise Gaspar, leia 'O Capital'. Gaspar, cansei da França, vamos à Rússia, agora em 1917.
- Legal.
- Pronto, chegamos, está vendo aqueles ali Gaspar?
- Sim, quem são e por quê estão tão maltrapilhos, sem botas neste frio?
- Veja que eles olham para dentro daquele salão de festas, onde pessoas elegantes, bem vestidas, estão dançando.
- Estou vendo, quem são?
- São os governantes. Enquanto estes estão famintos e com frio, chegando aos milhares em Moscou, aqueles nem foram, ou se foram desertaram, correram e vieram encher suas panças.
- De onde eles estão chegando?
- De uma frente de batalha onde lutaram. Estavam sem armas, com fome e estupidez. Lutaram com um exército bem uniformizado, barriga cheia e melhor equipado. O outro exército é daqueles que descendem do Sacro Império romano germânico.
- Quem são?
- Depois você pesquisa no google.
- Tá bom. Mas o nome daquele que está falando em revolta, em tomar tudo daqueles lá e dividir o calor e sua comida você diz, não diz?
- Sim, seu nome é Vladimir Ilitch Lênin, mas não se preocupe, ele morrerá em 1924.
- Ele conseguiu fazer o que falava e escrevia, pois escutei alguém dizer que ele era escritor como Carl Marx.
- Já andou pesquisando hein, como se chamava o filho do ricaço Gaspar?
- Friedric Engels, os alemães, vi no meu Ipod.
- Gaspar, o pior ainda está por chegar, virá um assassino chamado Stali, ai a coisa azeda. Por muitos anos ele mata em uma prisão na Sibéria e em todo país uns milhões que não concordam com ele. Mas vou lhe contar um pouco mais, esses revoltosos tomam tudo do governo, matam a família imperial e se organizam em núcleos, os quais são chamados de partidos. Dois principais foram os da Rússia, o Partido Branco que se opunha ao Partido Vermelho, sendo que este último massacrou o primeiro. Estabeleceu como bandeira um símbolo daqueles que trabalhavam no campo e nas indústrias, a 'foice e o martelo', por trás o vermelho, cor de uma fita que usavam no braço para se identificarem em batalha.
- Mas o que queriam fazer?
- Queriam seguir as palavras de Lênin, formar uma sociedade onde tudo seria igual como da ilha, lembra-se?
- Como eles a chamariam?
- Se você pensa que seria comunista errou. Eles chamariam esse bem comum, a essas pessoas que vinham do proletariado e do campo, de Socialistas.
- Ué, não é a mesma coisa que comunista?
- Não, comunista era o nome dado àqueles do Partido Vermelho, aqueles que usavam o laço vermelho e lutaram contra os dos laços brancos.
- Agora estou entendendo, o Socialismo era um meio para se chegar ao Comunismo.
- Isto Gaspar. O que você acha? Deu certo? Qual sua opinião?
- Acho que não deu certo porque já começaram com muito sangue derramado, um idealista que morreu muito cedo, um louco que assumiu em seu lugar, muitos pensadores, trabalhadores e pessoas comuns mortos em nome do partido comunista. E o pior, isso durou até 1989, imagine como sofreu o povo. Outra coisa que não deu certo: todos trabalhavam para distribuir para todos, mas os líderes do partido ficavam com o melhor, então muitos fizeram corpo mole e a produção caiu. Gaspar, vamos sair da Rússia e dar um pulo em um país descendente daqueles do Sacro Império. Vamos a um bar, quero lhe mostrar umas coisas e mostrar o paradoxo que existe entre dois caminhos, desde que eles sejam seguidos ao extremos por pessoas cegas e loucas pelo poder.
- Legal.
- Aqui estamos. Vê aqueles sujeitos no bar, reunidos? Vamos escutar o que eles falam. Gaspar, aquele de bigodinho ridículo é um ótimo orador, eles estão fazendo planos. Escute. Eles fazem parte de um partido socialista, como aqueles dos russos, também é um partido de trabalhadores, também vêm do proletariado.
- Como eles dizem que se chama o partido?
- Começou se chamando Partido do Trabalhador Alemão, agora se chama Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.
- Igual aos dos russos, veja, têm socialismo, têm trabalhadores e têm também uma nação, não é isso nacional?
- Trouxe você aqui para mostrar igualdes e divergências. Lembra-se que mandei ler o que significa paradoxo? Verifique a igualdade dos nomes, mas será que eles são comunistas? Verifique que eles se vestem iguais, como os dos laços vermelhos também se vestiam iguais após o laço, e usavam um boné com uma estrela como brasão. Veja que eles também têm um brasão, um sinal, parece uma cruz.
- Sim, eles têm uniformes, agora lembrei dos verdinhos, é meio cinzam meio caqui, não dá pra ver, esta escuro.
- Mas eu sei de onde vem aquele símbolo, é antigo, na Grécia antiga já aparecia, na Roma antiga também, parece que eram os cristãos que usavam para se identificar, além do peixe é claro.
- Você pode me dizer o some e o que ele representa?
- Sim Gaspar. É uma suástica e representa o partido socialista trabalhador deles, o peteba deles, todos os que andam com este símbolo são chamados de Nazi, nazistas.
- O que queria dizer com paradoxo?
- Quis dizer que você chega em uma encruzilhada, os caminhos, um vai à esquerda e outro à direita. Isto representa a vida. Assim você segue aquele caminho que optar, isto se chama livre arbítrio, a decisão de fazer o que quiser e seguir o caminho que quiser. Você encontrará alguns que vão para a direita, outros que cruzaram com você e seguiram à esquerda. Na Rússia aqueles que optaram pelo partido dos trabalhadores seguiram pelo caminho que chamaram esquerda, já qui neste bar, omo dizia os Nazis seguiram o da direita.
- Mas eles não são socialistas?
- São.
- Então eles não são comunistas.
- Errou, seguiram a direita, sem os ideais comunistas na sua socialização. E ai é que está o paradoxo, começaram a perseguir os comunistas, os judeus, os ciganos, os que Freud explicava, os que não quiseram adeir, etc, etc..., gostavam de fazer fogueiras com os que não eram seguidores.
- Agora entendi. Não importa o caminho tomado, o que importa é não serem extremistas.
- Perfeito Gaspar.
- Fale-me mais do que aconteceu em 1989.
- Bem, lembra-se dos russos, os socialistas do partido comunista?
- Lembro-me.
- Pois é, eles participaram no combate aos seus perseguidores, os Nazistas, em 1945. Tomaram a Alemanha juntos com os ingleses, franceses, canadenses, enfim, os aliados. Só que deveriam voltar para a Rússia, mas resolveram ficar na Alemanha. Estavam na antiga capital, todos juntos, mas eles eram da esquerda e os outros dominadores da direita. Para chegarem na Alemanha vieram atravessando países que foram dominados pelos Nazistas, então resolveram colocar suas ideias socialistas naqueles povos. Mas para que isto fosse possível teriam que mandar, e para mandar não poderiam retroceder seus exércitos.
- Mas isto também na Alemanha?
- Sim, principalmente lá.
- Mas e os aliados?
- Alguns retornam aos seus países mas os ingleses e americanos (estadunidenses) não quiseram arredar pé, pensavam que os russos poderiam impor o comunismo.
- E o que aconteceu?
- Começaram a se bicar, acabando por dividir o território em Berlim, e para que nenhum entrasse no lado do outro construíram um muro.
- Um muro?
- Sim, começou com uma barricada, arame e acabou em um verdadeiro muro, este separou os comunistas, ou melhor, os socialistas dos da direita chamados países democratas. Os russos nos outros países formaram uma comunidade.
- Tinham um nome? Quantos países eram?
- Sim, chamavam-se Comunidades Comunistas, após União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, eram no total de quinze.
- O que aconteceu com o muro?
- Em 1989 foi derrubado e novamente a Alemanha se uniu, os russos voltaram a seu país, ficaram mais liberais e acabaram com a dita guerra fria, uma guerra não declarada entre eles e os americanos (estadunidenses).
- Então acabou a birra entre os comunistas Russos e Democratas?
- Não ainda, ambos seguem seus caminhos à direita e à esquerda com extremismo. Os americanos chamam de seu Império Americano no mundo, mas é só para disfarçar e entrar em países que tem produtos naturais que abastecem o globo.
- Existe alguma relação com os comunistas russos e nós brasileiros?
- Gaspar, continuo a contar umas historinhas com 'h' e não com 'e'. Veja bem, tivemos em 1935 uma tentativa de golpe para derrubar o governo de Getúlio Vargas, ocorrida no Rio de Janeiro, chamada de Intentona Comunista, lembrando que o presidente era seguidor do caminho da direita, se extremista não sei. Também temos na atualidade alguns comunistas que passeiam por aqui, bem velhinhos, mas com extrema influência na cabeça de alguns governantes.
- De onde são eles? São brasileiros?
- São cubanos Gaspar. Deixe-me colocá-lo a par, bem rapidinho. Em 1959 houve uma revolução na pequena ilha de Cuba, assumindo o poder Fidel Castro. Este optou pelo socialismo e teve apoio da Rússia, pois os russos sabiam que a ilha estava muito próxima dos EUA, e ali poderiam colocar mísseis, caso resolvessem invadir a América do Norte (esta história contada para nós pelos americanos), mas dá para acreditar pois Kennedy, presidente americano resolveu atacar Cuba. Usou um exército de cubanos exilados nos EUA e colocou no comando a CIA. Levaram um pau dos cubanos na Baia dos Porcos em 1959, até hoje não acharam o rastro de volta. Fidel implantou o socialismo em Cuba, pelo Partido Comunista, aí treinou guerrilheiros de toda a América para levar o socialismo aos outros países, incentivando a guerrilha. Aliás Gaspar, você sabe o que é guerrilha?
- Não.
- Os índios americanos atacavam os brancos e recuava, voltavam a atacar e recuavam, a isto se deu o nome de guerrilha, podemos interpretar como uma escaramuça. Voltando, Fidel acolheu pessoas de todos os lugares, e da Argentina apareceu Chê Guevara para levar a guerrilha à América do Sul.
- Fale-me um pouco dele.
- Pelo pouco que li ele estudava medicina na Argentina e saiu para ver as comunidades pobres dos Andes. Não era aquele herói apregoado, era extremamente selvagem. Fedia, matou muitos inocentes, como crianças na frente dos pais para dar exemplo. Era frio (isto contado pela extrema direita) conforme americanos.
- E no Brasil temos comunistas extremistas?
- Deixe-me contar uma curiosidade, lembra-se dos anos 70? Eu não sabia o que era comunista.
- Sim.
- Pois é, naquela época existia uma gíria que ainda hoje usamos: 'pô cara'. Eu não sabia que era para tirar sarro dos extremistas de direita, os verdes. Usava-se suprimir as palavras, sabe o que significa?
- Não.
- Uma maneira de deboche. 'Pô' vem de esperma (porra) e 'cara' diminutivo de camarada, como os comunistas falavam para seus seguidores, e eu? Eu não sabia de nada, inocente (desapega). Deixe-me falar mais dos verdes. Eles agiram com extremismo, criaram casas de torturas, foram extremistas de direita.
- Mas aqueles que eles combatiam, quem eram, de onde vinham, onde eram treinados, o que alguns fizeram?
- Vou lhe contar Gaspar, alguns, digo só alguns, não todos que foram perseguidos, torturados, humilhados, sabiam o que se passava. Tiro como exemplo eu, que não sabia nem o que significava a palavra comunista e já tinha vinte anos. Ainda hoje, apesar de ter amigos da esquerda no Partido dos Trabalhadores em nosso país, o famoso PT, gosto de certas pessoas, bem dito, deles, de sua honestidade mas não compactuo com seus ideais. Ainda tenho tendência pelos mocinhos americanos, por ser xerife, ainda me orgulho de usar um brasão de extrema direita a serviço do governo. Governo que hoje infelizmente me enoja com a roubalheira, com os tais mensalão, mensalinhos, com vendas de empresas, a principal criada pelo Getúlio. Me enoja a venda de nosso orgulho nacional. Também tenho nojo da extrema direita americana, do seu imperialismo. Hoje, não como em 1970, estou ciente que serei rastreado se colocar meus pensamentos no google ou no facebook pelos débeis mentais do serviço de inteligência americano. Hoje eu sei que nossa presidente treinou em Cuba, hoje sei que sequestraram o embaixador americano, assaltaram bancos, não posso dizer se mataram, mas provavelmente sim. Hoje sei que fizeram parte daquela corja em Cuba, mataram no Araguaia. Me pergunto o porquê só um saiu vivo? Hoje eu sei que mais de setenta guerrilheiros foram mortos na década de setenta, quem foi o verdadeiro homem que entregou os outros, era um genuíno brasileiro? Hoje posso dizer: que saudades dos bancos da praça, das madrugadas esperando o último ônibus sem ser molestado, ou roubado por um pivete, um drogado e tudo mais. Deixe-me contar mais uma curiosidade, drogas advindas dos americanos que ensinavam, injetavam em seus soldados no Vietnã. Hoje eu sei e estou triste com o que está por vir, nas alcovas sussurros se escutam, esperamos que não sejam seguidores dos extremos, não importa o caminho. 
...
- Gaspar, aguardemos e rezemos para não chorar pelos nossos irmãos, não tomemos nenhum partido apesar de sabermos que algo está vindo. Rezemos por nós, pela nossa família, pela nossa nação para que não nos tornemos uma Ucrânia.
Boa noite

José Ariovaldo Claudino
*Com adaptações autorizadas


domingo, 19 de janeiro de 2014

Edição 147 - A copa do Mundo ou o Mundo da Copa

Muitas são as semelhanças entre os fatos por onde a "Copa do Mundo" é realizada.
Se fala tanto em legado, mas o questionamento a ser feito é:
Legado a que preço e para quem?


Copa de 50 teve várias semelhanças com o Mundial deste ano: intenção de mostrar ao mundo a “grandeza” do Brasil, dinheiro público na organização, briga de autoridades pela paternidade de estádio, atraso de obras e uma eleição presidencial logo depois.

2014 começa com duas semelhanças em relação a 1950. Ambos são anos de Copa do Mundo. E de eleições para presidente, governador, senador e deputado. Do lobby do ex-presidente Lula para garantir o evento no Brasil, em 2007, passando pela disputa regional para definir as 12 subsedes e pelas manifestações de 2013, o cenário político atual está fresco na memória. Mas como foram e quanto custaram os preparativos para 1950?
Operários limpando o Rio Belém, na frente do Ferroviário – junho de 1950
Há dois anos, quatro jornalistas levantaram histórias do planejamento feito para a o Mundial de 50. O trabalho resultou no livro 1950: O preço de uma Copa (Editora Letras do Brasil). “Existe todo tipo de obra sobre o que aconteceu dentro de campo na derrota para o Uruguai, o que queríamos era desvendar o que houve fora dele”, diz Murilo Ximenes, um dos autores.
O Colosso da Vila Capanema, em 1950
Não foi uma tarefa simples – a começar pela dificuldade de separar gastos públicos e privados e pela falta de comprometimento com a prestação de contas na época. Em uma soma das despesas possíveis de serem levantadas, com valores corrigidos, a Copa teria custado R$ 437 milhões. O valor é 64 vezes menor que os R$ 28 bilhões estimados para 2014.
Em 1950, a ampliação das arquibancadas com madeira
Fatores externos
Essa, porém, é apenas uma parte da história. O primeiro Mundial no Brasil só ocorreu graças a uma conjunção de fatores políticos internacionais. Passada a II Guerra, o mundo era um lugar confuso em 1946. Não fosse o conflito bélico, seria o ano da quarta Copa da história (a de 1942, pleiteada pela Alemanha nazista, já havia sido cancelada).
Com a Europa em cacos, a solução foi dar um tempo e planejar um novo campeonato, previamente estipulado para 1949. Onde? Na América do Sul. A primeira opção seria a Argentina, mas não houve acordo entre as autoridades do país e a Fifa. Coube ao Brasil sediar a competição.
Vista aérea do Estádio Durival Britto na Copa de 50
Era a deixa para colocar o “gigante” no mapa-múndi. O primeiro passo seria a construção de um novo estádio, na então capital do país, o Rio de Janeiro. Mas não poderia ser qualquer estádio, precisava ser o maior do mundo.
“No começo da Guerra Fria, havia um consenso de que para causar impacto, para conquistar respeito internacional, era necessário fazer obras que impactassem pelos números”, diz André Mendes Capraro, do Núcleo de Estudos Futebol e Sociedade da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Nesse contexto, ter a paternidade político-­eleitoral do empreendimento era fundamental.
Nascia o principal imbróglio da Copa. Eleito presidente para o período 1946-1950, Eurico Gaspar Dutra ficou de fora das articulações para trazer o evento para o Brasil. Mas esteve no eixo da “Batalha do Estádio Municipal”.
Jogo da Copa com andaimes da construção da cobertura do Maracanã: competição começou com o estádio inacabado
Dutra foi o responsável pela nomeação do prefeito do Rio, Ângelo Mendes de Ribeiro, em 1947. Ribeiro defendia que o estádio fosse construído às margens do Rio Maracanã, na Zona Norte. Então deputado federal e rival de Dutra, Carlos Lacerda fez uma ferrenha campanha contra os gastos com a obra e defendia que a construção fosse em Jacarepaguá, a 40 quilômetros do Centro da cidade, na Zona Oeste. O aliado do presidente venceu e o Maracanã saiu do papel a um custo atualizado de R$ 416 milhões, que corresponderam a 95% do total dos gastos com a Copa.
“Pelo que vemos na construção dos estádios de hoje, até que a obra do Maracanã andou rapidamente”, afirma Lycio Veloso Ribas, autor do livro O Mundo das Copas (Editora Lua de Papel). Do começo da construção ao primeiro jogo do Mundial, entre Brasil e México, foram-se 22 meses. Nessa partida, contudo, andaimes seguravam a cobertura da arquibancada.
Dias depois, no confronto entre Brasil e Iugoslávia, o iugoslavo Mitic bateu com a cabeça em um ferro exposto da construção no vestiário e, ferido, só conseguiu entrar em campo depois de a partida ter começado.
O governador Moisés Lupion recebe o embaixador da Espanha, que veio assistir ao jogo da seleção do seu país contra o time dos Estados Unidos. Foto de 23 de junho de 1950
Outras obras
Dos demais cinco estádios, apenas o Independência, em Belo Horizonte, foi construído para a Copa, a um custo estimado de R$ 10 milhões atual­mente. Todos os demais já existiam e receberam pequenos ajustes – algo bem distante do atual padrão Fifa. Na Ilha do Retiro, no Recife, as adaptações foram feitas em um mutirão de torcedores do Sport.
O estádio pernambucano foi escolhido a dois meses do início dos jogos e foi palco de uma única partida: Chile 5 x 2 Estados Unidos. O motivo: não havia nenhuma subsede nordestina. Como comparação, do total de 22 jogos do Mundial, oito foram no Maracanã e seis no Pacaembu, em São Paulo.
A propósito: mesmo com o “bônus” do maior estádio do mundo, o candidato do partido de Dutra na eleição presidencial, Cristiano Machado (PSD) ficou em terceiro lugar, com 21,49% dos votos. O nome da UDN de Lacerda, Eduardo Gomes, ficou em segundo, com 29,66%. Quem ganhou foi Getúlio Vargas (PTB), com 48,73%, que pouco, quase nada, se meteu nos assuntos da Copa.

Créditos
http://www.gazetadopovo.com.br/vidapublica/conteudo.phtml?tl=1&id=1440785&tit=Politica-de-chuteiras

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Edição 146 - Máscaras, uma crônica

Máscaras

Decepções me levaram a escrever sobre o tema: máscaras. Questiono se é possível viver sem máscaras, imagino que não. Inevitavelmente, em algum momento, lançamos mão desse artifício de vida curta. Para manter o emprego o sujeito bajula o chefe, para conquistar uma namorada o sujeito submete-se aos seus caprichos..., porém, em algum momento o teatro acaba, não se consegue mostrar o que não é por muito tempo. Vestimos máscaras durante nossa vida, fazemos parecer o que não somos. Dificilmente alguém cede de alguma forma se não tiver interesses escondidos. Ser educado não significa ser falso, e a ideia não é levar a discussão por esse viés.

Alguém que esta muito mal, passando por dificuldades emocionais, financeiras ou qualquer outra, desaba em casa, mas na rua precisa mostra-se forte. Chamado a emitir opinião, encara com responsabilidade, torna-se eloquente mas não consegue resolver seus problemas. E em casa, onde estão seus problemas, é visto como fraco, como alguém que 'não tem boca para nada', que não consegue se impor.
A vida segue rumo próprio, ninguém consegue enganá-la. Por mais que tentemos, isso ainda não é possível. Mas tentamos, e como tentamos. Quem, em sã consciência ou na mais pura ausência dela, lançou mão de um faz-de-conta para viver uma situação de pseudo conforto, mesmo que isso tenha um preço alto a ser pago. Ver alguém para satisfação pessoal, mesmo que provoque um sofrimento maior quando ouve que esse alguém já tem outro alguém, estranho? Permito-me lançar mão da dúvida, quem nunca...
A vida segue, arranjos são feitos, e  viver sem consequências ignorando a pequenez custa caro. Digo com isso que os laços devem ser mantidos com quem vale a pena, com quem não vale, descarte. O problema é descobrir com quem vale a pena.
As atitudes mostradas hoje, para quem tem um passado nebuloso, tem validade, fazem sentido ou impressionam apenas aqueles que não tem conhecimento desse passado. Por essas e outras que muitos mudam de cidade, de bairro, vão para onde ninguém o conhece e ali montam seu teatro, vestem sua máscara.
Voltando ao usar máscara para ser ou parecer forte, lembrei-me de Clarice Lispector e sua tirada sensacional: "Um amigo me chamou para cuidar da dor dele, guardei a minha no bolso e fui". Quem nunca vestiu a máscara de um super-herói e foi ajudar alguém a superar um problema que é idêntico ao seu? Quem nunca deu conselhos a um amigo que estava com problemas de relacionamento, tendo o seu de cabeça para baixo?
O desabafo ora lançado serve apenas como desabafo, não tenho a pretensão de lançar moda, ditar regras ou influenciar alguém na condução de sua vida, de seus atos...


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Edição 145 - O Paraná que os brasileiros ignoram

Lembrar sem conhecer?
A falta de identidade pode ser uma das causas.
A educação formal pode e deve agir na causa.
Um povo que não conhece sua história dificilmente conseguirá planejar seu futuro.

Pesquisa nacional revela que o estado é um ilustre desconhecido.
Causas vão da falta de identidade à não valorização do que é local.

O escritor Jamil Snege (1939-2003) estava enganado. Para tornar-se invisível em Curitiba não é preciso “andar por essas manhãs de muita neblina”, tampouco “ter um talento genuíno.” Basta existir. Para o azar de quem vive na capital mais fria do Brasil ou em uma das outras 398 cidades do estado, 43,7% das pessoas não sabem em que região do país fica o Paraná. Pior: 49,6% não têm ideia de que a capital é Curitiba.
Paulo Leminski foi o escritor mais lembrado na pesquisa, mas por apenas 0,4% dos entrevistados
Os dados são do instituto Paraná Pesquisas, que ouviu 2.550 pessoas maiores de 16 anos em 177 cidades de todas as regiões do Brasil entre 24 e 30 de junho de 2013. Se a cultura de um povo é seu cartão de visitas, também vamos mal: 96% dos entrevistados não souberam citar o nome de algum músico ou banda do estado – pobres Belarmino e Gabriela. Em relação a escritores, 99,1% não se lembraram de um só autor nascido por essas paragens.
As explicações passam pelo tamanho do país, pelo fato de o Paraná ser um estado relativamente novo, e principalmente pela ausência de identidade, catalisada historicamente pela algazarra étnica dos povos que construíram aqui suas casinhas com lambrequins. Em Curitiba, a dispersão das colônias é um bom exemplo. “Os italianos do Água Verde não se davam com os poloneses do Abranches. Entre diversas etnias, houve ‘guerras’ épicas. Por isso é difícil termos um produto consolidado disso tudo, um povo que pense da mesma forma”, explica Gehad Hajar, escritor e membro do Núcleo de Pesquisas dos Processos Identitários da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
As Cataratas do Iguaçu foram o ponto turístico mais lembrado: beleza indescrítivel (Cristian Rizzi/GDP)
Contra a crise de identidade de algo que ainda está em “formação”, a lição de casa é o apoio ao que é local. “Não valorizamos o que é nosso. Tirar o petit-pavé da calçada e colocar um pedaço de concreto é a prova cabal de que o Paraná não compartilha de sua própria história”, brada Hajar.
E parece que só quem vê de fora reconhece: morar em uma cidade do estado é “melhor” do que se estabelecer em outra região do Brasil para boa parte dos entrevistados (35,8%).
O tempo passa...
Bamerindus, Batavo, Prosdócimo, Móveis Cimo, Matte Leão. É tudo história. A ausência de marcas paranaenses conhecidas fora do estado, seja porque faliram ou porque foram vendidas, é um aditivo na fórmula do invisível. Segundo a pesquisa, 87% das pessoas não souberam citar uma empresa ou produto feito por aqui. A marca mais lembrada foi O Boticário, com 1,2%. “A falta de representatividade ajuda a piorar a percepção”, diz o professor de Ciências Políticas da UFPR Ricardo Oliveira, para quem o buraco é mais embaixo. “Há um desconhecimento sobre geografia e cultura geral que denota o problema crônico de educação básica no país.”
Deve ter sido por essas e outras que Paulo Leminski – lembrado por apenas 0,4% dos entrevistados como um escritor paranaense, mesmo com o sucesso da coletânea Toda Poesia – um dia escreveu: “Cuidado, inveja é pecado/ e Deus castiga/ Na próxima encarnação/ Vais nascer em Curitiba.”
Resultado do estudo é realista, mas não pode ser supervalorizado
Desde maio do ano passado a revista Helena – publicação trimestral da Secretaria da Cultura do Paraná –, divulga as manifestações culturais do estado e “redescobre” suas diversas regiões. O jornalista Omar Godoy, editor do suplemento cujo nome homenageia a poeta Helena Kolody (1912-2004), não se descabela com os dados da pesquisa. “Não é um pecado tão grande. Poucos estados têm uma visibilidade maior”, relativiza.
A desconexão entre Curi­tiba e o interior é outro nó. “Se o Paraná não se conhece, como vamos querer que todo mundo nos conheça?”, provoca. Um dado que comprova a tese é a demora na ligação entre Curitiba e Londrina, só consolidada com a inauguração da Rodovia do Café, na década de 60.
Nem ele
Ganhador dos prêmios mais importantes da literatura nacional com seu livro Filho Eterno (2007), o escritor Cristóvão Tezza – nascido em Santa Catarina, mas curitibano de falar “vina” e “penal” – não foi nem sequer citado pelos entrevistados. “No país, o número de leitores é insignificante. A pesquisa é um reflexo realista, mas não pode ser supervalorizada”, alerta ele, que também é colunista da Gazeta do Povo.
Além de “jovem”, Tezza afirma que o Paraná é ainda “bruto”, um estado em processo de construção. Por isso o estudo, que “daria no mesmo se fosse feito em outro estado”, não o preocupa. “Às vezes nos perguntam qual é a capital do Amapá e ficamos meio perdidos, não é?”
Paranismo
Movimento 'unificador' foi interrompido por Getúlio Vargas
Entre as décadas de 1920 e 1930, uma organização de distintos cavalheiros quis dar voz e vez ao estado. o Movimento Paranista, capitaneado por Romário Martins (1874-1948) e uma trupe animada que contava, entre outros, com João Turin, Zaco Paraná, Benedito Nicolau dos Santos, Laertes Munhoz, Emiliano Perneta e Nilo Cairo, surgiu na esteira do sucesso econômico da erva-mate para exaltar os feitos políticos e culturais do estado. é dessa época a criação do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, da Academia Paranaense de Letras, do Museu Paranaense e do Parque Nacional do Iguaçu. O movimento foi interrompido pelo 'modernismo' do interventor Manoel Ribas e pela unificação total do poder no país com a Revolução de 1930 que, por exemplo, extinguiu os hinos municipais. "Mesmo assim o gauchismo continuou", cutuca o pesquisador Gehad Hajar, da UFPR.
Cena musical não ecoa fora do estado
Na última terça-feira, a rapper curitibana Karol Conká desbancou a poderosa Anitta e levou o prêmio Multishow de 'Artista Revelação'. No dia seguinte, o jornal carioca O Globo publicou na capa de seu caderno de cultura uma reportagem sobre as novas bandas de Curitiba. Elogiou uma e outra, e lembrou a diversidade da música produzida no estado.
O bom momento da 'cena' local desafina quando lembramos da pesquisa, que mostrou que 96% dos entrevistados não souberam citar um músico local. Os três primeiros foram Chitãozinho e Xororó, que nasceram em Astorga (0,7%), Michel Teló, de Medianeira, (0,5%) e Banda Blindagem, de Curitiba (0,2%). 'O que acontece?' parece ser uma pergunta eterna na terra de Waltel Branco e outros gênios.
'Isso me causa espanto', diz Paulo Juk, baterista da Blindagem. 'Mas é aquela coisa: se não somos ouvidos na nossa casa, não vamos ser ouvidos fora dela'. A Blindagem foi um sucesso tremendo entre os anos de 1982 e 1993. Lotava o Teatro Guaíra e fazia a festa no programa do Chacrinha. Para Juk, o que atrapalha é a inexistência de um movimento, como o do rock gaúcho, consequência direta da ausência de identidade. 'As pessoas não são habituadas a ouvir música autoral em Curitiba'.
Caiobá
Matinhos/Caiobá foi a paraia paranaense mais citada por 4,8% dos 2.550 entrevistados pela Paraná Pesquisas em outros estado. Em seguida, vem Guaratuba, com 2,7%.
Poty
O desenhista e gravurista Poty Lazzarotto (1924-1998) foi o artista plástico do Paraná mais lembrado no levantamento, com 0,2% das citações. Ele foi mais citado que o pintor e escultor Alfredo Andersen (1860-1935).

Créditos

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Edição 144 - Menor cidade do Paraná

O número diminuto de habitantes provoca uma situação quase única: a ausência de homicídios.
Quase todos se conhecem, dessa forma quase todos sabem da vida de todos...


Menor cidade do Paraná, Jardim Olinda não registra homicídios há quinze anos

Das cinco cidades com menos moradores no estado, quatro ficam na região Noroeste. Além de Jardim Olinda, Nova Aliança do Ivaí, Santa Inês e Esperança Nova integram lista


Quatro entre os cinco menores municípios do Paraná ficam na região Noroeste. É o que indica o levantamento divulgado na quinta-feira (9) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ao lado de Miraselva, no Norte do estado, Jardim Olinda, Nova Aliança do Ivaí, Santa Inês e Esperança Nova têm menos de 2 mil moradores.
De acordo com a projeção da população para este ano, o menor município é Jardim Olinda, com 1.424 habitantes, 32 a mais do que o estimado no ano passado. Já na comparação com o Censo Demográfico de 2010, a localidade ganhou 15 moradores. Segundo o IBGE, essa diferença ocorre porque esta foi a primeira projeção populacional calculada a partir do Censo. Até o ano passado, o instituto utilizava estimativas matemáticas.
Localizada próximo à divisa com São Paulo e cercada pelos Rios Pirapó e Paranapanema, Jardim Olinda praticamente não tem ocorrências policiais. Tanto que há pelo menos 15 anos não é registrado um homicídio no local. Se o morador tiver algum problema e o destacamento da Polícia Militar (PM) estiver fechado, não tem problema, os moradores ligam diretamente para o celular do sargento responsável pelo policiamento.
Jardim Olinda não conta com hospitais e a unidade mais próxima está a 40 quilômetros de distância, em Colorado. No entanto, o único posto de saúde da cidade tem atendido a demanda a contento. Outra particularidade do pequeno município é de que todo mundo fica sabendo da vida dos outros. “Todos se conhecem e há uma ajuda mútua. É uma grande família”, afirmou o prefeito Juraci Paes da Silva (PTB).
Por outro lado, a cidade sofre nos últimos anos com a falta de empregos, o que tem gerado a emigração. “É uma tendência natural as pessoas trocarem as pequenas cidades pelos grandes centros, principalmente aqueles que residem na área rural”, ressaltou o prefeito, que também se queixou da queda no repasse do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). “As pequenas prefeituras dependem quase que exclusivamente dos recursos federais. Quando esse fundo cai, o município fica sem recursos para investir nos serviços públicos essenciais.”
Mesmo com as dificuldades, o chefe do Executivo tem boas expectativas com a chegada de duas indústrias (uma madeireira e uma de cerâmica) e a expansão do turismo de lazer. “Os condomínios fechados [às margens do Rio Paranapanema] estão em franca expansão. São loteamentos que atraem visitantes, que utilizam o comércio local.”

 Créditos
gdp

sábado, 2 de março de 2013

Edição 143 - Passeio Público

Passeio Público
Passeie pelo Passeio
Caminhe pelo Passeio
Use o Passeio



O Parque da magia
Criado como “antídoto” contra cólera e malária, Passeio Público também foi local de inacreditáveis acontecimentos para a mirrada população curitibana do século 19


Jovens caminham pelo Passeio Público, no início do século 20

O primeiro parque público de Curitiba – e do Paraná – não foi projetado para o lazer, mas sim pela necessidade de uma ação higienista, alertada pelo Dr. Muricy (José Cândido da Silva) em 1858. É que as águas paradas do Rio Belém, na curva do Boulevard 2 (atual Av. João Gualberto), causavam um cheiro daqueles em dias de calor e acumulavam resíduos a ponto de ocasionar uma possível epidemia de cólera, malária ou varíola. O terreno pantanoso virou o que hoje é o Passeio Público da capital paranaense.


Fotógrafo Helmuth Wagner fotografava muito o Passeio quando ele foi inaugurado. Wagner adorava registrar o contraste das sombras e das luzes no passeio. Acervo familiar: Helmuth Wagner

O local foi comprado pelo município, aterrado e inaugurado em 2 de maio de 1886. Foi nessa área alagadiça que diversas situações inéditas ocorreram na cidade – a população foi quase à loucura ao ver pela primeira vez a eletricidade, a partir de um foco elétrico instalado ali, um carrossel e, inacreditável: uma mulher voando em um balão.
Era uma Curitiba provinciana, governada por Alfredo D’Escragnolle Taunay: em 1886 haviam 15 mil habitantes e não mais do que 1.283 edificações na cidade. No livro Passeio Público: Primeiro Parque Público de Curitiba, da historiadora Cassiana Lícia de Lacerda, é possível ter uma ideia da sociedade da época. “A comida tinha preços ínfimos, era barata, farta e plácida, mas a sociedade desconhecia quase que completamente o que era luxo.” É de se imaginar o que aconteceu com essa população que, com seus trajes elegantes, frequentava o primeiro parque da cidade.



Momento de descontração no Passeio Público. Acervo familiar: Helmuth Wagner
Histórias
A chegada do carrossel, em 1888, foi um evento. A população o chamava de “máquina dos cavalinhos”. O carrossel, explica a historiadora, foi quase que uma revolução das máquinas, numa Curitiba em que o lazer se resumia a um sarau por mês, oferecido em clubes.
Uma multidão também lotou o Passeio Público no dia em que, pela primeira vez uma mulher, Maria Aída, subiu com um balão pelos céus de Curitiba – um voo frustrado, já que o balão acabou enroscado no lanternin da catedral. Bem neste dia, José Godoy, bufando de calor, resolveu se jogar em um dos lagos do parque para se refrescar, mas foi barrado pela polícia, quando já estava em seus trajes íntimos.
Portão do Passeio: entrada para pedestres. Acervo familiar: Helmuth Wagner
O Passeio Público também teve ares intelectuais quando em 1911, no fervor do helenismo, Curitiba coroou Emiliano Perneta como o príncipe dos poetas paranaenses. Ele se negou a ir até uma das ilhas de barco – não achava seguro. A ilha, chamada de Ilusão, recebe este nome em referência a uma das obras de Perneta. Lá, jaz o seu busto.
Quando o Rio Belém foi canalizado e se tornou navegável dentro do Passeio Público, primeiro surgiram os barcos e, depois, os pedalinhos. Acervo familiar: Helmuth Wagner
Nesse parque da magia, cogitou-se transformar os canais em locais de prática de natação, sem sucesso. Enquanto isso, nas ruas do Passeio, as pessoas faziam teste de baliza para tentar tirar a licença para dirigir. Havia muito movimento de pedestres, que literalmente ocupavam o parque, inclusive para ver os concertos a partir do coreto que hoje virou aquário. “É preciso dar novos fins ao Passeio. Não dá para aceitar que a história dele permaneça assim, desconhecida”, lamenta Cassiana.
O Passeio tem árvores históricas, como um carvalho que foi plantado na época de sua inauguração (1886) e que existe até hoje. Acervo familiar: Helmuth Wagner
O famoso portão e outras intervenções
É verdade. O Passeio Público tem um portão muito semelhante ao do Cemitério de Cães de Paris (Cemitière des Chiens de Asnière-Sur-Seine), e há uma explicação lógica para isso. O arquiteto Joseph Antoine Bouvard, contratado para ajudar nas reformas do Passeio, em 1919, trabalhou em obras do departamento de Sena (França), por isso é atribuído a ele também o projeto do portal do Cemitério de Cães. Conforme explica a historiadora Cassiana Lacerda, é provável que ele tenha retomado seus projetos e feito algo parecido por aqui.
A canalização do Rio Belém ajudou a evitar o surto de cólera, tão temido pelos higienistas. Acervo familiar: Helmuth Wagner
O europeu trouxe para os curitibanos outras novidades, como áreas de lazer no parque com concepção artística e paisagística de caráter haussmmaniano. Georges-Eugène Haussmann foi prefeito de Paris e considerado um grande remodelador da cidade que governou. “Ele criava paisagens naturais por meio de intervenções artificiais”, explica Cassiana. No Passeio, é possível ver esse tipo de arte na cerca que contorna o parque (feita de cimento, mas que imita troncos de árvores), nas grutas (uma delas feita semelhante a estalactites) e no antigo coreto, que imitava rochedos.
Os cisnes foram um dos primeiros animais a serem levados para o parque. Acervo familiar: Helmuth Wagner
O Passeio Público tem ainda outras peculiaridades. O primeiro parque infantil que a capital recebeu foi ali. O projeto era do arquiteto Frederico Kirchgässner – que projetou a casa modernista. O viveiro dos macacos, construído em 1932, tinha até lambrequins. E o Restaurante do Estudante, implantado durante o primeiro governo de Moisés Lupion, em 1950, após seis anos foi consumido por um incêndio. Foi nessa época que o novo restaurante Recreio do Garoto foi edificado e os barcos perderam espaço para os pedalinhos.
Pontes feitas com recursos artificiais imitam a natureza: técnica haussmmaniana. Acervo familiar: Helmuth Wagner
Momentos marcantes do Passeio Público
2 de maio de 1886 - O Passeio Público é inaugurado pelo presidente da província, Alfredo D'Escragnolle Taunay, mas ainda existem partes do parque que precisam ser finalizadas.
3 de agosto de 1886 - O Passeio é finalizado pelo sucessor da província, Joaquim d'Almeida Faria.
1888 - Curitiba ganha o primeiro carrossel da cidade. Nesse mesmo ano ocorre a desapropriação da Chácara de Nhá Laura, onde hoje é o Colégio Estadual do Paraná.
1920 - É inaugurado um novo Passeio Público, concebido pelo arquiteto Joseph Antoine Bouvard, com jardins de padrões 'hausmmannianos' e com o portão semelhante ao do Cemitério de Cães de Paris.
1932 - O Passeio recebe os primeiros animais. Depois chegou a ficar pequeno de tanto bicho: recebeu onças, tigres, jacarés, girafas, zebras, posteriormente transferidos para o zoológico.
1965 a 1966 - O Passeio sofreu intervenção de caráter significativo: a implantação do plano para o Passeio Público elaborado pelo Ippuc. A partir daí veículos não circularam mais pelo parque.
1973 - Até esse ano o Passeio era o único parque público de Curitiba. Depois começaram a aparecer outros. Ali a população ia para passear a pé ou de barco e admirar a natureza.
1974 - Ocorre o tombamento estadual do portão concebido por Bouvard.
1982 - Os animais começam a ser transferidos para o Zoológico de Curitiba, recém criado. Foi considerado o maior parque urbano do país.
1984 - Todo o Passeio Público é tombado pelo Estado pela importância de sua natureza e arquitetura.
Portão principal que lembra o portão do Cemitério de Cães de Paris. Acervo familiar: Helmuth Wagner
Intruso
Em uma das entradas do Passeio Público está o busto de Francisco Fasce Fontana. Lá, lê-se que o ervateiro teria doado o terreno para a construção do parque. Mas a verdade é que os terrenos foram adquiridos pela prefeitura, sem doações. Detalhe: o busto de Fontana foi retirado de seu túmulo.
Clima de inverno no Passeio Público. Acervo familiar: Helmuth Wagner
Pedestres entravam no Passeio pelos portões laterais, enquanto o principal era via de acesso dos carros. Acervo familiar: Helmuth Wagner
O Passeio Público na época da sua inauguração, ainda com cerca em madeira. Depois passou por reformas e recebeu as cercas atuais. Acervo da Casa da Memória/FCC
O parque ainda novo: só depois ele ganhou diversos equipamentos de diversão. Acervo da Casa da Memória/FCC
Passeata da festa da primavera. O autor da festa, Dario Velloso, no local em que foi realizada a festividade Olympica em honra ao poeta Emiliano Pernetta em 1911. Acervo da Casa da Memória/FCC
Melhorias no Passeio Público com a construção de uma ponte de concreto sobre o Rio Belém. Ao fundo o antigo viveiro dos macacos. Acervo da Casa da Memória/FCC
Viveiro de pássaros (antiga gaiola dos macacos), no interior do Passeio Público. Acervo da Casa da Memória/FCC
Vista do pavilhão de retretas (coreto) do Passeio Público, hoje transformado em aquário. Acervo da Casa da Memória/FCC
Pessoas posando em uma ponte sobre um lago no Passeio Público. Foto de 1909. Acervo da Casa da Memória/FCC
Coreto do Passeio Público. Acervo da Casa da Memória/FCC






Créditos
http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/ocupe-passeio-publico/conteudo.phtml?tl=1&id=1349819&tit=O-parque-da-magia